quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Carta aberta ao Bastonário da Ordem dos Médicos, a Teresa Rodrigues e a Fátima Campos Correia

Foi com grande atenção que ontem assisti ao Prós e Contras onde se debateu a lei que entrará em vigor no próximo mês de Janeiro sobre a prescrição por denominação comum internacional. Não me foi possível expressar antes a minha opinião, mas fiquei com algumas considerações a fazer. Como não tenho meios para vos fazer chegar a informação, pode ser que algum conhecido vosso leia o humilde blogue e vos transmita a ideia.

Em primeiro lugar, à atenção do Sr. Bastonário da Ordem dos Médicos, só algumas notas:
Aconselho-o a um estudo aprofundado e rigoroso nesse grande mundo que é a farmacocinética, de modo a entender de uma vez por todas o mundo dos medicamentos genéricos. A farmacocinética é uma disciplina estudada exclusivamente pelos farmacêuticos (repito: exclusivamente) e, portanto, o senhor não é especialista na área e arrisco-me a dizer que da matéria percebe zero. É que se entendesse alguma coisa do assunto, conceitos como bioequivalência não lhe passariam ao lado, e não proferiria disparates como "medicamentos bioequivalentes não se podem substituir entre si". Só mostra um total desconhecimento do assunto - uma conduta deverás lamentável para alguém que vai a um debate representar a classe médica portuguesa. Depois, no estudo farmacocinético que lhe aconselhei, e que desde já me prontifico a tirar-lhe as centenas de dúvidas que irão pairar nessa cabeça (não é uma temática fácil de entender, vá por mim), um conceito importante que deverá apreender é o de biosdisponibilidade. Depois disso, estou certo que nunca mais virá para a televisão dizer que "biodisponibilidade é a quantidade de princípio activo no medicamento, é a concentração que atinge no sangue e que portanto vai fazer efeito". É que quando estudar vai perceber que biodisponibilidade e dose não têm a mesma definição (a quantidade de princípio activo activo no medicamento é a dose, biodisponibilidade representa a percentagem de fármaco que atinge a circulação e que, por conseguinte, fará efeito). E depois de adquirir estes conceitos básicos que o ajudarão a ter um discurso lógico, científico e verdadeiro, vai começar a fazer-se luz nessa cabeça. E será nessa altura que se irá chicotear até fazer sangue nas costas ao lembrar-se que disse que "o Infarmed não garante a qualidade de todos os medicamentos". É que a autoridade reguladora do medicamento não tem preferências, ao contrário do que acontece com a sua classe profissional, que passa a vida a preferir receitar marcas do que genéricos (eu não queria generalizar, mas depois da sua intervenção no debate e uma vez que representa os seus colegas, tive de fazê-lo). O Infarmed regula todos os medicamentos que são comercializados em Portugal. Por isso não tenha insónias devido a este assunto - é tempo perdido e preocupações sem fundamentação. É que a sua falta de fundamentação nas coisas que diz preocupa-me seriamente: fico sempre preocupado quando alguém diz que a diferença genética entre os ratinhos e os humanos é muito pequena. Diga-me, senhor Bastonário, se anda a ver desenhados animados a mais. Aposto que o Ratatui é o seu filme de animação preferido. E eu que pensava que era o À Procura de Nemo, por adorar tanto a Dori que é uma tonta e não diz coisa com coisa. Mas voltando à minha recomendação: estude. Estou aqui para ajudá-lo e incentivá-lo a sair da ignorância. Persistência!

Em segundo lugar, gostaria também de deixar umas palavrinhas à Dr. Teresa Rodrigues, que decidiu dar uma aula de culinária aos portugueses dizendo, para esclarecimento de todos, que os medicamentos genéricos são como bacalhau à brás feito com produtos menos bons, ditos de marca branca. A si, quero apenas ensinar-lhe um conceito muito básico: a indústria farmacêutica não se abastece como a malta durante a crise quando vai ao super-mercado. Não existem produtos de topo e outros menos bons (os de marca branca) à escolha. A qualidade é máxima em tudo o que é utilizado. Como é que lhe hei-de explicar isto de uma maneira que você perceba? Olhe... é como se tudo o que você comesse durante toda a vida fosse cozinhado pelo Jamie Oliver (nunca teria sequer a hipótese de escolher a senhora a quem compra os rissóis lá no bairro). Espero que tenha percebido a analogia, da mesma forma que eu percebi que a senhora é especialista em hipertensão porque percebe de bacalhau salgado.

Por último, e porque as recomendações e considerações já vão longas, deixo as minhas últimas palavras à Fátima Campos Ferreira:

Cara jornalista, se não fosse incómodo gostaria que me mostrasse a parte do código deontológico da sua profissão que diz para ser parcial. É que cada um tem direito à sua opinião e a senhora não é excepção. Mas quando como jornalista medeia um debate, a conversa é outra. E já que falo em debate, e em mediar um debate, deixo-lhe um conselho: faça o trabalho de casa. Vai ver que para a próxima já não diz que os genéricos são a denominação comum internacional e que pode haver troca de princípios activos na farmácia. Ficava-lhe bem mostrar-se preparada para o assunto. Eu percebo que só uma ínfima parte da população é que percebe do assunto e que, por isso, qualquer intervenção que tenha pareça espectacular e irrepreensível aos olhos dos portugueses. Mas depois existem os estudantes e os profissionais da farmácia que olham para o seu programa armados em detectores de mentiras. E olhe que eu detectei várias. Tenho só mais uma coisa a dizer-lhe: foi vergonhosa a sua conduta durante todo o debate. Combinou com o Bastonário da Ordem dos Médicos, não foi?

21 comentários:

Anónimo disse...

Muitos parabéns pelo seu texto, gostei bastante. Fico contente por mais gente ter partilhado a minha consternação perante essas três intervenções. Foi realmente lamentável a falta de rigor científico com que o representante dos médicos portugueses e uma médica (amiga do "Zé Manel", heim? Quem diria!) falaram ao país. Quanto à moderadora, além de todos os erros que cometeu ao longo de todo o debate, o escândalo com que afirmou que "os medicamentos genéricos nunca são inovadores e ser inovador é muito importante!" foi a gota de água.

Anónimo disse...

É de louvar ler uma opinião bem formada, e que mesmo que seja leiga nessa matéria (eu) a partilhe contigo. Não vi o programa na integra, e sim chamo de programa porque de debate não teve nada.

Só tenho é a dizer que à dois anos encostei o meu médico à parede e lhe disse que não estava para pagar um exagero mensal como aquele que ele me impunha... e lá com muito esforço me receitou genéricos desses dois medicamentos, e de 50 euros passei a gastar mensalmente 13 euros de meds -.- . Coisa que não durou muito e passados meses quando lá voltei para novas receitas o esperto do senhor me volta a meter uma palhaçada de 50 euros mensais... o que é certo é que para o ano simpaticamente que se "enganou" e não me passou bem as receituxas.

Verdade seja dita... sempre ouvi dizer que dá muito jeito e ganham umas coisitas simpaticas por fora se nos enfiares certas marcas de medicamentos plos olhos a dentro.... agora se é verdade.... ca não sei.... :)

vou-me calar antes que escreva e nunca mais me cale. cumps, Sara.

Anónimo disse...

ola! gostei mt do seu texto, de facto o bastonario dos medicos vai ter de rever alguns conceitos.
gostava so de fazer um pequeno reparo: de facto o codigo genético dos ratos é dos mais semelhantes ao do Homem. Aliás, tirando o dos primatas, o codigo genético dos ratos é o mais semelhante ao do Homem. Acrescento até que os ratos (roedores) e os primatas tiveram o mesmo ancestral. depois é que classe desenvolveu a parte sexual, ratos, e a outra parte desenvolveu a parte intelectual, nós humanos e primatas no geral!
Aparte disto concordo em tudo!

Cumprimentos,
Farmacêutico

Anónimo disse...

Por acaso sabe me dizer o grau de igualdade genética entre os humanos e os ratos? Certas experiências não são primeiro testadas em ratos e depois nos humanos? Acho que quando o bastonário da OM disse isso, não disse bacorada nenhuma.
Falam da ganância dos médicos, mas aposto que os farmacêuticos também têm muito a ganhar com a venda de genéricos.
Por fim, a prescriçao de genéricos não tem aumentado em Portugal? Pelos vistos os médicos até receitam genéricos então...
De resto, concordo como o que disse.
Cumpts

Anónimo disse...

Concordo com a semelhança genética entre humanos e ratos. No entanto, a resposta a uma dado medicamento não é com certeza igual. Senão já teriam descoberto a cura contra a SIDA !

Anónimo disse...

A semelhança entre o codigo genético humano e dos ratos é de cerca de 70%, muito superior ao de caes, gatos, mas muito inferior claro aos 98% do chimpanzé! no entanto é baseados nesses 70% que se fazem as experiencias com ratos. Isto quer dizer que mais ou menos 70% das proteinas, enzimas e receptores celulares dos ratos sao muito semelhantes aos nossos (têm a mesma Base genética, a mesma estrutura). E por isso é que os ratos são tão usados em experiencias, além de serem baratos (o total que se gasta com um rato de laboratório é de cerca de 10€, muito menos que os milhares que se gastaria com um chimpanzé)!!
Sobre a outra questão: nós farmacêuticos não ganhamos nada ao vender genéricos! repare que estes são bem mais baratos que os de marca! ora, se nos está a acusar de ganancia, então era suposto querermos vender os de marca! penso que isto é muito claro, mas nem toda a gente o percebe.

A prescrição de genéricos está a aumentar em portugal sim (antes não se vendiam nenhuns, e se agora se vendem alguns então o gráfico da prescrição tem obrigatoriamente de aumentar!!) Mas o problema não está aí. O que os médicos querem é prescrever genéricos do laboratório X e não Y porque dizem que o do laboratório X faz efeito e o do Y não faz efeito. Mas eles, no geral, não percebem nada de "biodisponibilidade" e "bioequivalência" (são áreas da farmácia muito complexas) e por isso é que dizem que os genéricos são diferentes.
É, por isso, ridiculo que os médicos queiram "bloquear" as receitas. ("bloquear" significa eles prescreverem o generico do laboratório X e não o deixam trocar na farmacia pelo do laboratório Y)

Cumprimentos
O mesmo Farmacêutico

Anónimo disse...

Olá!
Não vi o programa mas aparentemente o Bastonário da ordem dos médicos comportou-se como um idiota... Mas de qualquer das maneiras deixo aqui uma pequena correcção: farmacocinética não é estudada exclusivamente pelos farmacêuticos. os estudantes de medicina, pelo menos na minha faculdade, também estudam farmacocinética (e portanto sabemos que de facto não é o mesmo que a dose)e farmacodinâmica. relativamente à creditação dos medicamentos não sei nada disso mas conheço farmacêuticos que me garantem que não são todos fiáveis.
De resto, quero só deixar claro que actualmente no ensino médico aceita os genéricos e dá ênfase a que se tenha em atenção as necessidades económicas dos doentes.

Anónimo disse...

Desculpe lá anónimo de medicina, mas farmacocinética e farmacodiâmica todos estudamos em farmacologia. Os cursos de enfermagem também estudarão, por exemplo.

Mas se eu lhe disser que na faculdade de farmácia onde tirei o curso estudei métodos de diagnóstico, provavelmente iria achar uma barbaridade, porque lá por ter tido mil e uma cadeiras onde os diagnósticos fossem referidos e explicados, não me habilita a falar de diagnósticos. Muito menos com especialistas da área, os médicos.

Percebam uma coisa de uma vez por todas: ganância há em todo o lado. Por isso é que os médicos chegam atrasados a centros de saúde e hospitais públicos. É que o consultório lá de casa com consultas por 80€ é bem mais friendly para o médico do que as enfadonhas horas de clínica, qual dr. house!

Portanto deixem-se de demagogias e reconheçam que a prescrição por dci, além de segura, favorece e muito os doentes economicamente. E se vocês se preocupassem menos com o bem estar dos doentes e menos com os lucros das farmácias, o vosso bastonário poupava-se a humilhações públicas auto-inflingidas como aquela a que assistimos segunda feira.

Anónimo disse...

Excelente texto Johnny.

Eu próprio, um leigo, tinha escrito acerca do assunto aqui:

http://oinsurgente.org/2011/11/16/o-bacalhau-a-bras-da-hortense/

DiagnosisNoob disse...

Quanto à questão dos ratos a semelhança é variável consoante o que se esteja a estudar, sendo que quanto mais simples o fenómeno mais fácil será avaliar a adequação do modelo animal. Eu já nem me lembro do que é que ele estava a falar e provavelmente eu não estaria qualificado para concluir sobre a escolha do modelo animal escolhido naquele estudo, mas garanto que existem muitos artigos científicos que só dizem asneiras. Só porque está publicado não faz do estudo uma lei, a ciência é dinâmica e como humanos que somos provavelmente 90% do que "sabemos" agora deverá estar errado ou incompleto. I digress, o que quero dizer é que a diferença de 30% afirmada num comentário anterior entre o homem e o rato pode ou não importar, mas afirmar que as semelhanças são muitas no geral logo os estudos que usam ratos são sempre fiáveis é, de facto, uma barbaridade.
Quanto ao bacalhau, achei o exemplo máximo de ignorância. Dar uma oportunidade àquela... senhora, de falar foi um desastre. Uma especialista de hipertensão mostrar a imensa extensão dos seus "conhecimentos" sobre a produção de medicamentos só faz sentido num programa em que a intenção não é explicar à população como as coisas realmente são, mas sim criar polémica. Isso ou ignorância também de quem a convidou. Isto também demonstra a ideia que alguns médicos têm dos farmacêuticos: o que eles sabem também eu sei. Eu nunca tentaria fazer qualquer tipo de diagnóstico que deva ser feito pelo médico e gostaria que tivessem mais consideração pelos especialistas dos medicamentos que somos.
Quanto ao infarmed eu só sei o que me ensinam na faculdade e isso é: tudo está sujeito às mesmas leis e tudo é controlado ao máximo das nossas capacidades, na Europa toda. Se não confiarem na qualidade de um genérico não podem confiar na dos outros medicamentos, até porque as mesmas instalações podem produzir os dois.

Já agora acho que o "debate" foi uma vergonha porque de debate não teve muito. Posso até ser imparcial, mas os médicos estavam em modo de ataque em vez de debate e o Prof. Maurício basicamente só se teve de defender. Acusar os farmacêuticos de ter interesses quando eles é que os têm todos neste momento? Adeus viagens e apartamentos no Algarve, sorry. E usar casos e artigos específicos (os quais eles não reportam, logo como e que esperam que o infarmed saiba se está tudo bem) e extrapola-los para os genéricos em geral não é ciência, é um um golpe baixo desenhado para corroborar as suas teorias e deitar abaixo a "concorrência". É pena que os interesses que REALMENTE existem ponham em causa o cumprimento das funções destes profissionais de saúde e, portanto, a saúde e os direitos da população.

Anónimo disse...

Boa noite!

Em primeiro lugar, quero agradecer a liberdade que me concede (espero que não tenha que tolerar muita estupidez :) )

Sou médica, e sou contra esta lei, mas não pelos motivos apresentados pelo Dr. José Manuel Silva. Sou médica especialista em Medicina Geral e Familiar e tenho um ficheiro com cerca de 1800 utentes. 75% deste meu ficheiro tem idade superior a 70 anos, com uma taxa de analfabetismo de 62% (sim são valores reais, e sim tenho orgulho em ter o meu ficheiro bem estudado!).

Dada a situação do meu ficheiro, tenho por hábito prescrever genéricos a não ser em situações de utentes que são seguidos por outros médicos (hospitalares) e que me vêm pedir renovação de receituário, mantendo, nessas situações, a medicação inicialmente prescrita, em acordo com o doente.

Ora bem, sou contra esta lei por duas razões:

1) Em primeiro lugar, a maioria dos meus utentes, cumpre a medicação, porque sabe que da caixa verde deve tomar 1/2 comprimido pela manhã e que da caixa com a risca vermelha são 3 por dia. A troca sistemática dos genéricos nas farmácias, irá trazer-me graves "dores de cabeça". Sei do que falo e afirmo o que digo porque não é infrequente ter doentes a fazer 2 ou 3 vezes o mesmo medicamento (com os óbvios efeitos adversos que daí advêm) porque foram a farmácias diferentes e lhes forneceram genéricos com caixas diferentes.

2) como deve imaginar tenho um registo de todos as consultas que faço, assim como de todos os efeitos adversos das medicações por mim prescritas (e sim envio o devido formulário para o Infarmed sempre que tal ocorre). Deve concordar comigo que não sendo uma questão de biodisponibilidade ou farmacocinética, as pessoas reagem de formas diferentes aos medicamentos. Tenho alguns (poucos) casos de doentes que fizeram alguma reacção adversa à sinvastatina do genérico x, mas que passando para o genérico y (mesma sinvastatina e mesma dose), deixaram de ter essa reacção (psicossomático? talvez...) Já para não falar nas pílulas contraceptivas orais que sendo da mesma dose têm efeitos imensamente variáveis nas mulheres.

É apenas por estas razões que me oponho! E para os menos informados, a prescrição por DCI é obrigatória desde 2007, sendo (quase) totalmente universal desde Agosto de 2011 com a introdução da Prescrição Electrónica de Medicamentos.

Anónimo disse...

Desculpem lá, mas toda a gente sabe que há genéricos de boa qualidade e de má qualidade. até porque há genericos de um principio activo a 4€ e outro identico (mesmo principio activo, dose e numero de comprimidos) a 17 ou 18€!!!
Os excipientes têm de ter qualidade, e o genérico tem de passar nos ensaios de biodisponibilidade e bioequivalencia, mas isso não quer dizer que na realidade (na prática) isso aconteça.
há genericos que não fazem absolutamente nada, é como comer farinha!

Anónimo disse...

Minha cara médica,
pela minha ética farmacêutica não posso deixar passar o seu post sem o comentar.
Relativamente ao seu ponto 1)
Esta nova lei, antes de mais, em nada implica que os seus doentes se confundam. A nova lei obriga a que as farmácias tenham os 3 medicamentos mais baratos no mercado, para determinado p.a., dose, e tamanho da caixa. Isto significa obrigatoriamente que, qualquer que seja a farmacia a que o seu doente vá, terá sempre lá disponivel a "caixinha verde ou amarela" ou la o que for. Mais, se neste momento o doente está sobremedicado ("não é infrequente ter doentes a fazer 2 ou 3 vezes o mesmo medicamento") é porque a falha passa pela "relação médico-doente" e pela "comunicação médico-doente" que tanto fizeram enaltecer no programam pros-e-contras: o doente não faz a minima ideia do que esta a tomar. Na minha opinião bastaria dizer "voce tem de tomar 2 de manha, 3 ao almoço e 2 a noite para se se houvesse sobremedicação este dava logo conta! Não é o Farmacêutico que tem culpa disso e muito menos o próprio doente que coitado é analfabeto.

Ponto 2)
Realmente é verdade que pessoas diferentes reagem de maneira diferente a produtos identicos, e muito mais se forem produtos diferentes: como genericos de laboratórios diferentes. Mas por favor não confunda o facto de genericos diferentes provocarem reações diferentes com terem eficácia diferente! Os genéricos têm, ou podem ter, excipientes diferentes, por isso estes excipientes diferentes podem causar reações diferentes na mesma pessoa. Vou-lhe dar um exemplo muito simples baseado no seu exemplo: o generico sinvastatina x pode ter um excipiente que é lactose, e o generico sinvastatina y em vez da lactose tem o caulim. Ambos são excipientes de enchimento, do mais básico que há sobre excipientes. No entanto o seu doente pode ser intolerante à lactose e reagir contra ela, e isso explicar as diferentes "reações". No entanto, isto não quer dizer que a eficácia de entre os genéricos fosse diferente: ambos iriam ter o mesmo efeito sobre o teor de colestrol do seu doente! [Note que estou só a dar uma possivel explicação.] Por isto gostaria que toda a gente percebesse o seguinte: os genéricos X e Y fazem ambos baixar o colesterol na mesma proporção. Notem que quaisquer outras reações colaterais também podem acontecer entre medicamentos DE MARCA, mas ninguém fala delas! (não lhes convém?)

Por fim, e nisto posso estar errado, eu penso que desde 2007 o que é obrigatório não é a prescrição por DCI, mas sim a prescrição uniformizada, que obedeça a regras standard, em que esteja explicito o principio activo seguido da marca do medicamento entre [], seguido da dose e do tamanho da caixa, em suporte de papel impresso. A prescrição por DCI é em tudo semelhante, mas exclui a marca do laboratório: Sinvastatina 20mg, 56 comp.

cump.

Anónimo disse...

Caro anónimo, agradeço a sua resposta, mas devo opor-me às razões que o fazem contestar o que eu escrevi.

O facto da farmácia ter os 3 genéricos mais baratos, não me diz nada, uma vez que ao retirar o nome do genérico da receita, a farmácia não tem como saber que medicamento aquele utente está a tomar. Estes erros ocorrem quando por algum motivo o utente renova o receituário (por exemplo numa ida à urgência, o que não devia acontecer), uma vez que até lhe podem receitar o mesmo princípio activo, mas de um genérico diferente. O doente não sabe ler, a caixa é diferente e o que acontece é que, começa, por exemplo, a tomar 2 anti-hipertensores iguais.

Tento contornar esta situação, primeiro cedendo uma lista de medicação crónica a cada utente, e depois pedindo que me venham informar de cada ida ao serviço de urgência.

Como é farmacêutico, acredito que também tenha aprendido e estudado algo como a relação farmacêutico-doente, pelo que me sinto consternada com o que acabou de dizer. O facto de eu dizer ao meu doente que os medicamentos do colesterol se tomam ao deitar e o da tensão, de manhã é bastante viável, mas deixa de o ser quando um doente faz 6 ou 7 medicamentos diferentes. O facto dele compreender as doenças que tem e a medicação que tem que fazer não significa que saiba distinguir uma metformina de um carvedilol! Significa sim que consegui motivar o meu doente para tomar 2 comprimidos apesar de não apresentar sintomatologia nenhuma, a fim de prevenir as consequências de uma DM e uma HTA mal controladas.

Relativamente ao segundo ponto, não posso deixar de achar piada, porque me contradisse, apoiando o meu ponto de vista. Se eu só puder colocar o nome da substância activa, como irá saber o farmacêutico que aquele doente faz algum tipo de reacção aos excipientes do genérico x, devendo portanto tomar o genérico y?

Repare, não sei se esta é a realidade com que se depara, mas a verdade é que algumas pessoas são muito resistentes a mudanças (não imagina a guerra que tive que travar com alguns doentes aquando da substituição do Plavix pelo Clopidogrel)!

Tenho algum receio relativamente a esta situação, mas como me parece "ponto assente", no decorrer do próximo ano, terei muito gosto em partilhar a minha experiência.

Bem haja!

Anónimo disse...

Boa noite!
peço desculpa pela minha questão, mas acho pertinente: a senhora Dra do comentário acima acha conveniente o Sr farmacêutico ter de ter 30 marcas de genéricos lá na farmácia só do mesmo principio ativo e para a mesma dose? alguns deles só um doentes é que os vai buscar, e isso é de 2 em 2 meses. além disso é verdade que os medicamentos de diferentes marcas do mesmo principio ativo também não tÊm os excipientes identicos.

e dou-lhe agora eu o seguitne conselho:

se um seu doente reage mal á marca x de genérico: JUSTIFIQUE! é simples: JUSTIFIQUE!! escreva na receita o porquê de não aceitar a marca y. Mas por favor não Justifique TODAS AS RECEITAS DE TODOS OS SEUS DOENTE! porque aí o seu grau de credibilidade cai pelo chão. porque não acredito, nem ninguem acredita, que todos os seus doentes só se dão bem com a marca x e nenhum se dá bem com a marca Y.

cump,
outro farmaceutico

economista disse...

Carta Aberta ao Presidente do Infarmed
(a propósito da sua intervenção no “prós e contras”)
Tendo ouvido V. Exa. “corajosamente” afirmar que TODOS os medicamentos vendidos em Portugal , qualquer que seja a sua origem (India, China , etc....), têm “qualidade” , “segurança” e “eficacia terapeutica” !... Fala-nos em “tempo util” quando logo nos refere “ano e meio” !... E tudo isto é contraditório quando assistimos a retiradas do mercado de medicamentos danosos ...
“Os crimes das grandes companhias farmaceuticas” por Teresa Forcades Vila . http://www4.dr-rath-foundation.org/The_Hague/complaint/portuguese/complaint03.htm
http://douglashrhds.blogspot.com/2009/01/indstria-farmacutica.html
Com estes pressupostos , sendo a Instituição que V. Exa. mui superiormente dirige , um verdadeiro cordão umbilical da Industria Farmaceutica , uma simples e ingenua pergunta : É V. Exa. responsável pelos danos causados por quaisquer medicamentos que com causa e origem na sua produção provoque a morte de um doente ? Devo lembrar a V. Exa. que em qualquer Democracia a corrupção é uma variável omnipresente e ser “uso” a entidade fiscalizada ser previamente “avisada” da sua proxima fiscalização ... Assim , serão bem merecidos os passeios dos seus auditores quando se deslocam à India para auditarem a fabrica de genericos que referiu ...
Recorda-se V. Exa. de um controlo ao fabrico de genericos inicialmente legislado e que logo foi posteriormente legalmente dispensado eventualmente para não onerar os custos de produção dos genericos à custa da saude dos doentes ?
http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/pros-contras/
http://oinsurgente.org/2011/11/16/o-bacalhau-a-bras-da-hortense/
Post Scriptum
Directa ou indirectamente , não tenho quaisquer interesses relativamente às entidades em confronto
em relação à produção , comercialização e utilização dos controversos genericos sob presumido controlo
do Infarmed .
Apenas o consumo habitual de dois “medicamentos de marca” ...

Anónimo disse...

Cara Doutora, ora estava para não comentar mas os argumentos utilizados por si para justificar o não uso da prescrição por DCI deixaram-me sensível à situação dos "seus" doentes.

Ora provavelmente a Doutora trabalha numa zona do Interior de Portugal, provavelmente rural, onde predomina o analfabetismo, mas a realidade é que apenas 2% dos Portugueses são analfabetos, e temos já um sistema de ensino que conta com a quase totalidade das crianças portuguesas. Portanto o analfabetismo tende a decrescer, logo esse argumento vai perder força com o decorrer do tempo, e não creio que deva ser um entrave à evolução. Esses devem ser cenários de excepção que devem ser previstos no decreto de lei aprovado.

Depois, manifesto aqui a minha incompreensão relativamente ao farmacêutico que se alheia da relação farmacêutico-doente, e imputa toda e qualquer responsabilidade de alteração de dosagens sobre o médico.
Ás vezes é exactamente por termos profissionais desta tarimba ao balcão de uma farmácia, que dia após dia nos imputam a responsabilidade de "caixa" numa farmácia, e a diferenciação para um técnico de farmácia é nula!

É importante que os doentes confiem no seu farmaceutico, até porque na minha opinião não se justifica que a prescrição de medicamentos de doença crónica tenha de passar sempre pelo médico.

cmpts
Estudante de Ciências Farmacêuticas

economista disse...

Seria optimo que este nobel estudante de ciencias farmaceuticas tivesse razão ... Jovem ou ingenuo ? Português analfabeto ou "para-analfabeto" são equivalentes . A generalidade sofre de iliteracia economico-financeira e social . Por vezes até de obesidade mental . Tendo como Biblia Sagrada as Televisões das Telenovelas e futebol ... Alunos dos Cursos Médios que não sabem escrever e muito menos fazer analise critica . E isto encontra-se tambem até no ultimo ano de Cursos Superiores Universitários . O que se poderá pedir aos restantes ? É Povo fácil de enganar quer pelas D. Brancas quer pelos politicos mentirosos (serão todos mentirosos ? ) . São tambem materia prima de facil tratamento pelos anestesistas politicos ....

Anónimo disse...

Caro "economista", em lado algum me viu louvar o sistema de educação português, ou a tirar juízos de valor sobre o mesmo. Constatei factos, e a realidade é que temos "apenas" 2% de analfabetos em Portugal, e temos a quase totalidade das crianças portuguesas a frequentar o sistema de ensino, seja ele público ou privado.

O argumento utilizado supra estava relacionado com a incapacidade dos doentes em ler o que estava escrito nas caixas. Portanto o facto de sofrerem iliteracia economico-financeira e social nada tem a haver com o caso.

Mas já que fala nisso, a realidade é que cada vez mais temos uma população de ovelhas, completamente alienada, que sabe tudo sobre a novela das 5, ou sobre as equipas dos 3 grandes, mas quando toca a altura de saber quem são Presidente da Républica, Primeiro ministro, ou até diferenciar as diferentes forças políticas e associar-lhes filosofias económico sociais não conseguem!

O verdadeiro português preocupa-se com o €€€ que chega ao final do mês, e desde que não o chateiem, pouco ou nada se preocupa com o resto. Está no momento de mudar mentalidades e começar a discutir os moldes como se processa o ensino em Portugal, desde o básico até ao futuro do sistema de ensino superior.

cmpts
Estudante de Ciências Farmacêuticas

economista disse...

Caro Estudante de Ciencias Farmaceuticas :
Estamos de acordo , excepto :
População Portuguesa : 10.700.000
Analfabetos : 1.000.000 (10%)
Para-analfabetos : ... ? ...
Não é por acaso que Portugal está como está !...
Sem NATALIDADE e EDUCAÇÃO este País não tem Futuro ...

Padrões disse...

Sim, combinou.

Nem um ponto acrescento. Puseste em texto exactamente o que assolou o meu pensamento durante dias. Fiquei cega ...