Não gostava de ser figura pública. Preservo muito a minha privacidade, só exponho a minha vida até onde quero. Para mim seria impensável ter gente a vasculhar o meu passado, ter sempre alguém a vigiar-me os passos e a fotografar-me. Fosse num jantar muito romântico ou numa simples ida às compras, que nisto a imprensa cor-de-rosa não faz distinção. Para mim a fama só tem um lado bom: a pessoa ser reconhecida pelo seu talento. E por talento não me refiro a ter jeito para ir a festas e abanar bem as ancas. Refiro-me a talento no teatro, no cinema, na escrita, no desenho, na arte em geral. Mas não sei se essa parte boa é assim tão boa que compense o outro lado mais negro. É que quem não tem cabecinha e maturidade suficiente para gerir bem a exposição pública, é endrominado em três tempos. É muito giro fazer capas de revista, ser sempre o mais cool e estar em todo o lado e em tudo o que é festa. Mas depois isso tem um preço a pagar - a perda da privacidade. As pessoas habituam-se e acham-se no direito de saber tudo da vida das celebridades. E depois, quando acontecem casos como o do Angélico Vieira em que muito se especula, a situação é explorada ao máximo. São as pessoas que querem saber o que aconteceu e são as redacções que, sedentas, disparam notícias a toda a hora, sendo que muita pouca verdade é dita.
Também há outra coisa que me faz muita confusão em Portugal. Porque é que uma figura pública é vista como um Deus, que nunca erra e nunca merece nada de mal? É que notícias como estas surgem todos os dias e não vejo ninguém a ter pena do rapaz que ia a conduzir e cujo amigo morreu devido à sua má condução. Condenamos tanto as asneiras que o comum dos mortais praticam, como, por exemplo, não usar cinto de segurança e conduzir com excesso de velocidade, há tanta revolta e tanta campanha para combater isso, e depois é só preciso que seja uma pessoa conhecida a cometer essas ilegalidades que tudo é esquecido. O importante é que fique bem, isso do cinto de segurança é só um pormenorzinho, coitado, de certeza que o cinto o estava a incomodar. Olha... à conta dele, um rapaz morreu e uma rapariga também não está nada bem, mas pronto, são vicissitudes da vida, o importante é que ele esteja bem. Eu imagino se não passasse de um desconhecido: o caso era mais um que figurava na terceira página do Correio da Manhã, e as pessoas mais próximas culpariam o condutor por imprudência e lamentariam a morte do rapaz que ia à boleia. Mas não, neste país figura pública é sinónimo de santo. E se são estes os exemplos que temos, fico muito mais descansado, não haja dúvida!